Rosemiro, menino de cabelos castanho-claros, do tipo 'cortados pelo tio', meio espetados, volta para casa depois de mais uma manhã de aula. O colégio fica a poucas quadras de distância, o que impele Rosemiro a criar, diariamente, rotas alternativas, aumentando seu conhecimento geográfico do bairro.
Ele fala sozinho. Enquanto fala, olha os pés em movimento perseguindo sua sombra - “Entenda que este mundo é o reino das trevas e jaz no maligno!”, a avó ou a mãe sempre diziam. E continuavam: “Se há algo em que gloriar, somente na graça alcançada em Jesus Cristo!” - ele se cagava de medo de Jesus Cristo.
Quando tinha oito anos, os pais de Rosemiro liam para ele e o irmão trechos da bíblia: Os demônios; a mulher-estátua-de-sal, eternamente com a face voltada para trás; os anjos, que não tinham sexo; Cristo, em espectro; todos saltitavam no quarto enquanto Rosemiro assistia ao pai e a mãe revezarem a leitura. Algumas vezes, Pan, tocando sua flauta, saía do guarda roupas seguido de um Lobisomem afeminado, com flores espalhadas pelo corpo peludo.
Essas imagens que invadem a alma durante a caminhada, são reflexos do dia em que foi pego se masturbando na frente da prima.
Filha caçula de Tia Joelma, irmã da mãe de Rosemiro, Jussara Julia Bianchini, Sarinha, como era chamada, na época tinha seus 12 anos de idade. Ela morava com os pais e dois irmãos, numa modesta casa cujo terreno divisava com os fundos da casa dos pais de Rosemiro. Todas as tardes, com raras exceções, Sarinha e Rosemiro brincavam de correr ao redor das árvores por entre os dois pátios. Também subiam e desciam, com os bolsos transbordando de ameixinhas, quando era a época dessas frutas amarelas e gordinhas brotarem.
Sarinha, segundo descrição de Rosemiro, parecia uma pequena saracura. Isso devido às pernas finas que sustentavam o corpo da menina de cabelos castanho-escuros e chuquinhas. Sempre sorridente e agitada, instigava ao primo; este, tímido e introspectivo, aderia ao movimento como alguém que cai em correnteza fortíssima, sendo arrastado pelas forças da Natureza. Sendo essa senhora, velha cafetina que não pede a idade dos freqüentadores do seu Night Club, a responsável por esse constrangimento, que, como um terceiro mamilo, Rosemiro carregaria por muitos anos.
Era uma tarde em que nada diferia das demais tardes ensolaradas, de brincadeiras inocentes e joelhos esfolados, vividas por Rosemiro. Uma tarde no topo das árvores, cuja percepção de tempo é relativa à imaginação profícua das crianças: Ali, os minutos estendem-se por dias; e as horas, por semanas.
Sarinha e Rosemiro escolhiam os galhos mais altos e robustos para, tranqüilos e afastados dos olhares dos adultos, degustarem as cobiçadas ameixinhas. Nessa tarde, sentados no mesmo galho, Sarinha, por curiosidade, perguntou à Rosemiro se, como seus dois irmãos mais velhos, ele masturbava-se.
Até esse instante, estas ferramentas, plug-ins de um complexo software sexual, não haviam sido pronunciadas, ou melhor, denunciadas por nenhum dos dois. Tudo estava implícito; desde a já manjada, “primeiro as damas”, expressão muito usada por ele, depois da qual Sarinha subia à árvore toda sorrisos & calcinhas; até as brincadeiras de esconder, na qual um terceiro infante contava, e a dupla escondia-se em algum lugar apertado, onde o suor se dá menos pelo calor do que pelas indescritíveis erupções sensoriais. Transpirava-se em silêncio trêmulo. Não havia palavras, até então.
Diante da afirmativa do primo, Sarinha exigiu uma prova. Prova esta que, na velocidade de um lapso, foi executada com maestria por Rosemiro, ali mesmo, em cima da árvore, na frente de Sarinha; e o tempo parou.
Era tudo escuridão e silêncio. Depois, houve uma explosão de luz branca, como num imenso flash.
O diálogo:
- Quem és tu, invasor?
- Eu? – Rosemiro, atordoado, vislumbra no galho acima do seu, a figura medieval de
outro menino que o ameaça com uma pequena espada – Eu?
- Não te faças de tonto! Diga! Quem és tu? – Grita, ameaçadoramente, o menino com a espada em punho – Quem és tu que invade os meus domínios!
- Seus domínios? Espera aí... Eu te conheço! Você é o Barão das Árvores! Não sei o que aconteceu... Não entendo mais nada... Você... Você é personagem de um livro!
- Quem és tu, que invade os meus domínios? – insiste o espadachim, ignorando as palavras do outro.
- Como assim? Eu sou... Meu nome é... Não consigo lembrar o meu nome...
- Pois, sei quem tu és e lembro-me de teu nome muito bem!
Perplexo, o menino amnésico não vê mais o jovem espadachim. Agora ele está diante de um senhor calvo e grisalho, surgido como que da fumaça espessa do cachimbo pendente em sua boca. Com uma voz rouca, o velho diz:
- Teu nome és Id.
- Id?
- Isso mesmo, Id.
-?
- Na psicanálise, teu nome é relacionado aos conceitos estruturais do aparelho psíquico do homem, formado por instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes e regido pelo princípio do prazer, que exige satisfação imediata. É a energia dos instintos e dos desejos em busca da realização desse princípio do prazer. É a libido, meu filho!
Novamente, a escuridão surda-muda e repentina.
Vozes distantes gradativamente ganharam volume, até o ponto em que, de súbito, estouraram os auto-falantes do inconsciente de Rosemiro, desencadeando uma insuportável dor de cabeça no menino.
Quando abriu os olhos, não enxergava com nitidez; conforme a dor amenizava, os vultos foram tomando forma. O primeiro vulto que distinguiu foi o da árvore, que não mais estava firme sob seus pés. Depois, viu sua mãe que lhe abanava o rosto aos prantos, Tia Joelma, Sarinha; da posição que estava, fixou os olhos como olhando para frente e vislumbrou o céu. Era isso; ele tinha caído da árvore. No mesmo dia, ficou sabendo que seu primo, Régis, irmão mais velho de Sarinha, famoso pela pontaria precisa, e intimidade no manejo do estilingue, vendo Rosemiro masturbar-se na frente da irmã, não pensou duas vezes e derrubou o menino da árvore.
Seu Ego foi ferido - é isso que acontece quando ele submete-se aos impulsos do Id - o Super-Ego pode estar em qualquer lugar, qualquer arbusto, moita, apenas aguardando o momento exato da pedrada.
* * *
No portão de casa, sentiu o cheiro bom do guisado que a mãe preparou para o almoço, e sorriu satisfeito.
FIM
domingo, 31 de maio de 2009
Rosemiro
Artérias sinfônicas
Uma colher de chá e,
Beber essa canção que eu fiz
Pra no teu sangue ela circular
E no teu coração, metrônomo meu,
Minhas notas irão tocar
A sinfonia das artérias
Só pra ti.
Argumentação e espuma
Acumulavam espessa baba em farta barba.
Meu nome é Enéas!
terça-feira, 12 de maio de 2009
Crivos & Cisos
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Concreto
Tornar concreto.
Ir aonde o verbo jamais foi;
Levantar o rabo do sofá
[pra que haja movimento;
A transpiração da inspiração:
Ricardo Sabadini 19/06/08
terça-feira, 20 de maio de 2008
Êxodo
Quarta feira, dia 21 do mês de maio de 2008, estaremos nos apresentando em Passo Fundo. Cidade de pessoas por nós muito queridas (algumas não; óbvio), mas a grande maioria sim. Enfim, não se vive impunemente os prazeres de uma vida no interior, onde é bem provável conhecer todas as pessoas que produzam algum tipo de ruído, harmonioso ou não, mas que de qualquer forma se fazem presentes; além do mais, o conflito é necessário. É no conflito que são expostas as idéias dos omissos, daqueles que nunca manifestam opinião alguma, a não ser, quando não há alternativa senão vomitar tudo o que pensam.
Mas não é pra falar desses assuntos belicosos que eu interrompo meu mantra e redijo essas linhas. Vou falar um pouco sobre o dia em que saí de Passo Fundo (eu=Ricardo), pra morar em Porto Alegre.
Foi cedo, sete horas da manhã o caminhão de mudanças estava a postos na frente da casa dos meus pais. Tudo estava previamente encaixotado, enrolado, amarrado, empilhado, então foi rápido o embarque das bugigangas. Meus pais moravam em Chapecó e nesse dia só meu pai tava pra dar uma mão. Um breve abraço no velho e algumas lágrimas; mas não muitas. Fomos, o motorista e eu, pra segunda parada das três previstas: a casa do Criba, o baixista da minha banda na época.
Minto! O Criba já estava na casa dos meus pais quando o caminhão chegou. Fui buscá-lo antes. Exalava cachaça, o rapaz. Fez uma despedida e tanto. Durou a noite toda e o cheiro acre do álcool que evaporava lentamente por seus poros pra entrar com violência nas minhas narinas, parecia mais uma alma que recusa deixar o corpo do morto.
É importante a informação que nessa época eu tocava na BrancoLarera, portanto, o Miglú, no nosso imaginário, gozava de uma vida plena de prazeres na capital: mulheres de diversas etnias, shows semanais ET Cetera... Ele migrou pra Porto Alegre com a banda Rabo de Peixe seis meses antes.
Ficamos um ano inteiro nos preparando pra essa aventura. A preparação consistiu em gravar um disco e finalizar todos os detalhes que isso comporta: uma capa, a prensagem, mixagem, masterização e o diabo. Tudo finalizado: o apartamento em Porto Alegre alugado; alguns relacionamentos amorosos desfeitos; estávamos prontos. Só nos restava partir. E partimos.
A última parada foi na cidade de Casca, pra pegar o Reynaldo, sua bateria, alguns outros objetos de utilidade doméstica e, seus vinis, isso sim, de suma importância. O Sr. Flauri, pai do Reynaldo, nos presenteou com dois garrafões de vinho colonial de sua adega particular recomendando-nos beber com parcimônia, o que não deixa de ser um delírio paterno. Mais abraços e lágrimas; mas não muitas.
Agora sim; on the Road.
Pra economizarmos nas passagens e termos o que comer nos primeiros dias, decidimos que apenas um integrante da banda teria o conforto de um ônibus com ar condicionado e a possibilidade de uma bela garota sentar ao seu lado. E esse abençoado foi o Tucum, o vocalista. Óbvio; sempre o vocalista. Pro resto (Criba, Reynaldo e Eu), sobrou a vista panorâmica da estrada pela cabina do caminhão, onde cabiam três pessoas confortavelmente e, quatro, com uma boa logística. Entre cotoveladas, câimbras, e membros adormecidos fizemos uma boa viagem.
O motorista estava longe de ser uma bela garota, mas era simpático. Ele também não conhecia Porto Alegre, mas não importa. Chegamos bem, na medida do possível. Ficamos os três primeiros dias sem luz, mas foram apenas três. Gostamos de Porto Alegre, brigamos em Porto Alegre, embriagamo-nos em Porto Alegre, sorrimos e sonhamos em Porto Alegre. E tudo isso está em nossas canções. E tudo isso é Severo em Marcha. E algumas lágrimas; mas não muitas.
Ricardo Sabadini
Porto Alegre, 20 de maio de 2008.
quarta-feira, 12 de março de 2008
De tudo que é feio
Fazer careta; é feio.
Não dar o dízimo; é feio!
Fumar; peidar; também é feio?
- Expulsão, cartão vermelho!
Homem que chora, não é homem...
...é feio.
Questionar o governo? É feio! Muito feio!
Dormir sem rezar;
O que não ter; desejar.
Falar por falar;
Irmã de amigo; transar.
É feio! É feio! É feio!
Eu gosto do feio.
De tudo que é feio.