segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Você devia praticar algum esporte, Jeremias

- Deixa de ser bunda-mole!

- Não precisa ofender.

- Me desculpe, cara... mas eu acho que você precisa dum choque, pra ver se acorda!

- Eu sei.

- Sabe? Sabe nada!

Secou a testa com um guardanapo de papel; estava vermelho, sentia o suor escorrer pelas costas. O amigo ficou calado, cabisbaixo, encarando um maço de cigarros sobre a mesa. Como isso foi acontecer com o Jeremias? Quando estudavam juntos no interior, era um jovem com muito potencial. Praticava esportes, era mais alegre...

- Olhe, eu não quero te dizer o que fazer.

Jeremias pegou um cigarro do maço e o isqueiro que estava no bolso. Disse:

- Não esquenta.

Cigarro aceso, deu uma longa tragada e soltou a fumaça lentamente. Ficaram encarando-se em meio à fumaça. Na mesa, as marcas dos copos formavam uma figura que parecia com o símbolo das olimpíadas.

- Jê, e o futebol, hein? - perguntou com um imenso sorriso nos lábios.

Continuou: - Você costumava ser um gremista fanático! Lembra que viemos assistir Grêmio X Corínthians, lá pelo início dos anos 2000?

- Lembro, sim.

- O Grêmio perdeu, mas nos divertimos muito – manteve os olhos vidrados como se tivesse uma epifania.

– Você deveria voltar à praticar esportes, cara! Tem todo aquele lance de endorfina... pegar um sol... essas coisas!

- Agradeço a dica.

-Ah! Me esqueci... Você só fuma! Só fuma e reclama... não faz nada além disso: FUMA & RECLAMA! – escreveu com o dedo indicador sobre as rodelas de água deixadas pelos copos, enquanto esbravejava cada sílaba. Estava vermelho novamente, e suava nas axilas. Jeremias sorriu dessa vez.

– Tá rindo do quê? Eu continuo afirmando que você deve praticar algum esporte, se envolver com as pessoas, dar umas risadas ao sol.

- Dar umas risadas ao sol – repetiu Jeremias. – É bonito isso.

- Ué, pensa que só você pode ser poeta? Acha que não pode surgir um caminhoneiro poeta?

- Não, eu não penso assim.

- “A saudade é a memória do coração.”, li isso na estrada. O que acha?

- Bonito – disse por educação e porque sentia-se melhor.

- E essa? “Eu não sei cozinhar, mas na estrada vou ver seu cuzinho.”

Caíram na gargalhada e beberam até esvaziarem os copos.

- Jê, eu sei que você não é mais aquele Jeremias dos velhos tempos. Eu também não sou o mesmo. Não gosto das mesmas coisas que gostava há anos atrás – fez cara que insinuava o trocadilho com ânus. – Sacou?

Falou enquanto lotava os copos com o líquido dourado.

- Saquei.

- Mas esse lance de trabalhar com as letras te mudou mais do que a estrada me mudou. Eu, agora tenho o meu filho, que mora com a mãe dele, em Guaíba. Meu pai morreu, e minha mãe foi morar com o meu irmão em Santa Catarina. O cenário e os personagens mudaram, mas eu continuo o mesmo. Já, você...

- Desembucha.

- Você continua no mesmo lugar desde que chegou aqui. Vem tomar cerveja sempre nesse mesmo boteco chinelão da Rua da Praia. Ainda é um cara boa pinta, apesar dessa brancura de doente. Mas dentro dessa caixa de merda que você costuma chamar de cabeça, as coisas mudaram assustadoramente, Jê.

-Pode ser.

- Como você fala pouco, porra!

Jeremias acendeu o último cigarro do maço. O amigo mandou o garçom trazer um maço de Marlboro vermelho.

-Deixa que eu pago as cervejas e o crivo. Afinal, eu sou o cara do dinheiro dessa dupla.

O garçom entregou os cigarros e levou a garrafa vazia para dentro do bar. Jeremias agradeceu a gentileza. O amigo espreguiçou-se na cadeira de plástico, esticando os grandes braços para o céu.

- Jê, eu vou nessa.

- É cedo.

- Mas tenho que ir. Vou pro nordeste amanhã cedo; tenho coisas pra arrumar.

- Bom, agradeço pelo papo.

- Foi muito bom, mesmo – levantou, e aí Jeremias lembrou o quanto era grande o seu amigo.

– Antes de ir, quero que você prometa que vai praticar algum esporte – e fez um gesto exagerado de interrogação, esperando uma resposta.

- Vou pensar, eu prometo.

-Bunda-mole! Você é um baita dum BUNDA-MOLE!

Virou as costas e foi pisando firme pela Rua da Praia. Jeremias ficou sentado terminando o crivo, enquanto o amigo sumia na multidão.

Nunca mais o viu.

Jeremias soube pelos jornais: "Comunicamos o falecimento do caminhoneiro Altamir Nunes, gaúcho, 37 anos. O velório será no dia...". Dizia que sofreu um infarto fulminante enquanto jogava futebol com alguns amigos numa praia de Salvador, Bahia.

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